PARTE I


Não se sabe ao certo em que época foi conhecido o alto do Rio Sapucaí, embora Diogo Vasconcelos tenha afirmado que por ali passou, em 1601, a expedição de Dom Francisco de Souza, da qual fazia parte o alemão Glimmer, o primeiro naturalista que penetrou no território mineiro. É incontestável, porém, que pelos fins do século XVI, já se sabia da existência de ouro, tanto no alto do rio Verde como no Alto Sapucaí, conforme Orvile Derby, no seu trabalho "Os primeiros descobrimentos de ouro em Minas Gerais".
Derby refere que as descobertas das minas do Alto Sapucaí passaram despercebidas por serem pobres e o seu ouro, chamado de "lavragem", não existir em quantidade que fizesse desaparecer o preconceito geral contra as minas de tal natureza. De fato, as jazidas do sul de Minas não atraíram notavelmente os mineradores, salvo as minas do Rio Verde, entre Campanha e São Gonçalo, muito procuradas pela sua riqueza e extensão. Essas minas tornaram-se por fim o centro das explorações que deram em resultado o devassamento de grande parte do sul de Minas. Estavam elas em franca exploração quando se deu a primeira contenda de limites entre as capitanias de São Paulo e Minas Gerais.
Por este motivo, Francisco Martins Lustosa, Veríssimo João de Carvalho e outros paulistas influentes, que residiam no distrito de Campanha do Rio Verde, foram intimados pelas autoridades mineiras a deixar o povoado, por causa de suas pretensões favoráveis à posse de São Paulo. Em consequência do ultimato, Lustosa e seus companheiros transpuseram o Sapucaí, então limite entre as capitanias, e se estabeleceram em suas margens. Tempos depois, iniciaram as explorações que fizeram em toda a região, cujo resultado principal foi a descoberta das ricas jazidas de Santana do Sapucaí, pelos anos de 1743 a 1745.
Em 1746, Martins Lustosa e Veríssimo João tomaram posse do descoberto de Santana e foram nomeados pelo governador de São Paulo, respectivamente, Guarda-mor e Intendente das minas. Deixando depois as terras repartidas e em franca exploração, prosseguiram em suas investigações, devassando toda essa parte da bacia do Sapucaí.
Veríssimo João perlustrou os rios Cervo e Mandu, em cujas as cabeceiras descobriram-se as minas de Ouro Fino, e mandou abrir uma picada entre Santana e o novo descoberto. Apossadas e divididas as minas de Ouro Fino, Lustosa, que já havia construído uma igreja em Santana, mandou construir outra em Ouro Fino, o que, como diz Derby, ficou em flagrante desacordo com a denominação de "quilombo", que os mineradores davam ao arraial, para afugentar as autoridades e o fisco principalmente.
Francisco Martins Lustosa, que foi tabelião em Mogi das Cruzes, mais ou menos no ano de 1735, era homem enérgico, inteligente e possuidor de cultura, o que, naquela época, devia ser coisa pouco vulgar. Veríssimo João de Carvalho, vereador, também de Mogi das Cruzes, figura destacada, por algum tempo companheiro de Lustosa, tornou-se considerado pelos mineiros como autoridade, pelo conhecimento que tinha da região que devassou, e respeitado por suas qualidades cívicas e tendências a favor de Minas Gerais, na questão dos limites.
A estes dois sertanistas, quase desconhecidos, devem-se todas as denominações geográficas da região compreendida entre as serras do Cervo e São Domingos, nas nascentes do Itaim.
Alguns anos antes dos fatos referidos, Simão de Toledo Pisa, partindo de São Paulo, estabeleceu-se com Carta de Sesmaria nas paragens do rio Jaguari. Daí estendeu as suas explorações, cujo resultado foi a descoberta das minas do Jaguari, que parece terem dado origem à atual freguesia de São José dos Toledos.
As investigações de Toledo Pisa e Lustosa-Veríssimo, partindo a primeira do sul e a segunda do norte, tendendo ambas para o mesmo ponto, encontraram-se por fim. O fato produziu a abertura do caminho que atravessa toda a paragem compreendida entre as serras Carapuças, Boa Vereda, Pantano, Paredes e Palmital, de um lado, e o Sapucaí de outro; fechada ao norte pela serra do Cervo e ao sul pelas vertentes da Mantiqueira.
Essa vereda, que, a princípio, foi um prolongamento do caminho de São João del-Rei para Campanha e Santana, tornou-se, ao alcançar o pouso de Cláudio Furquim de Almeida, o trajeto mais curto entre São Paulo e Vila Rica.
Ao longo desse caminho estabeleceram-se paulistas e mineiros, uns com carta de sesmaria, outros como aventureiros, abrindo as fazendas de criar, que deram origem a várias localidades, entre as quais as cidades de Camanducaia, Cambuí e Pouso Alegre.
A primeira sesmaria concedida no percurso dessa estrada foi ao paulista Cláudio Furquim de Almeida, pelo Conde de Bobadela, em 1762. Pelo que foi possível averiguar, Furquim de Almeida já habitava a paragem desde 1757, com fazenda de gado vacum e criação de éguas. De tal fazenda originou-se um pequenino povoado que tem hoje o nome de Itapeva, situado entre Santa Rita de Extrema e Camanducaia. Naquele tempo, a Fazenda Furquim era ponto de pouso e lugar geral e oficialmente denominado "Pouso Alegre". Ainda hoje, em alguns mapas geográficos de Minas Gerais, o lugar vem assinalado com o dito nome.
Na mesma época, isto é, em 1757, mais ou menos, alguns aventureiros estabeleceram-se mais adiante - uns em Camanducaia, outros em Campo Largo (Cambuí); Domingos Soares, onde é hoje N. S. da Conceição da Estiva e, por fim, Antônio de Araújo Lobato e Félix Francisco, nas paragens do Mandu.
Em 1760, toda a grande região mencionada era conhecida e geograficamente denominada pelos exploradores que a devassaram, assim como oficialmente administrada.
Da ambição dos aventureiros que se perdiam ao longo dos rios e ribeiros em procura de ouro, nasceu o conhecimento do vasto sul de Minas. Uma vez esgotadas as terras minerais, eles as abandonavam e partiam por mais aventuras e por mais ouro. Mas a lavoura e a criação prenderam e radicaram os que habitavam ao longo dos caminhos, onde levantavam a capela e o cruzeiro - o povoado sertanejo de que nasceram as cidades.

PARTE II


No prefácio de seu "Almanaque Sul-mineiro", de 1874, diz Bernardo Saturnino da Veiga "que não tendo à sua disposição as informações que só podem ministrar as repartições superiores, teve de solicitá-las por meio de agentes, de aldeia em aldeia...".
Sabe-se também que o próprio Bernardo da Veiga visitou algumas das cidades principais do sul de Minas, a fim de colher pessoalmente informações históricas sobre a origem delas e sobre os fatos notáveis ocorridos desde as suas fundações.
Com tal intuito esteve na cidade de Pouso Alegre, onde, entre manifestações festivas dos seus correligionários conservadores, ouviu algumas pessoas do lugar que lhe convinha serem bem informadas; anotou o que lhe contavam sobre a origem de Pouso Alegre e escreveu o que está no seu almanaque.
Quem foram estas pessoas e o crédito que mereciam não se sabe; diz simplesmente o historiador urbano: "Velhos moradores do lugar... "Não teriam sido eles os conhecidos e temíveis informantes, que, investidos das funções de testemunha histórica, aumentam o pouco que sabem, inventam e mentem quase sempre?
Eis, porém, o que consta do "Almanaque Sul-mineiro", de 1874:
"Segundo a tradição que se tem conservado, quem primeiro habitou as margens do Mandu, foi um aventureiro de nome João da Silva... Prosperando em sua lavoura, fez João da Silva, no fim do século passado, doação do terreno necessário para edificação de uma igreja dedicada ao Senhor Bom Jesus...
Construiu-se a capela com o auxílio de alguns moradores vizinhos e, no ano de 1795, o padre Francisco de Andrade Melo, que então residia na paróquia de Santana do Sapucaí, veio celebrar a primeira missa que houve nesse lugar, ficando desde então capelão particular...
Em 1797, o governador D. Bernardo José de Lorena, conde de Sarzedas, que de São Paulo fora transferido para a capitania de Minas Gerais, , passou pelo nascente povoado, onde veio a seu encontro o juiz de fora de Campanha, Dr. José Joaquim Carneiro de Miranda...
Encantados pelo suntuoso panorama que se descortinava a seus olhos, e pelos vastos e límpidos horizontes que os cercavam, conta-se que um daqueles personagens dissera: "isto não devia chamar-se Mandu, mas sim Pouso Alegre". E daí veio a denominação que o povo e a lei posteriormente sancionaram..."
Depois que Bernardo da Veiga publicou o que aí fica, ninguém mais escreveu coisa alguma a respeito do mesmo assunto, e nem por mera curiosidade procurou indagar se era ou não verídica essa história de um aventureiro João da Silva, com a sua propriedade, sou donativo, essa primeira missa, esse encontro de Miranda com Sarzedas e conseqüente batismo do lugar por um desses ilustres homens.
Tudo quanto se tem escrito sobre Pouso Alegre, de 1874 para cá, nos anuários massudos do Estado, nos almanaques efêmeros, nos relatórios de visitadores sanitários, em memória episcopal, tem sido cópia fácil e cômoda dos cinco períodos em que Bernardo da Veiga contou, talvez para sempre, a história da origem de Pouso Alegre.
Contavam, também, outros velhos da cidade, que o primeiro habitante das margens do Mandu foi um paulista apelidado Manduca, que vivia da pesca e, como barqueiro, dava passagem no rio cujo nome se originou de seu apelido.
Essa versão sem fundamento toca às raias da tolice, porque, a sério, não se pode admitir barqueiro em um rio que da vau em muitos lugares no tempo da seca, época do ano em que, como é sabido, se viajava pelos sertões; fora, ainda, a ingenuidade de conceber-se um aventureiro vivendo de pesca sozinho, ou dando passagem onde não existiam passageiros!
Rejeitando-se pois, de um vez, essa hipótese infantil, resta o que fantasiou, ou antes, lirizou Bernardo da Veiga, no seu imorredouro e massudo almanaque de 1874, lacrimal histórico do Sul de Minas.

PARTE III


Logo que os aventureiros se estabeleceram nos sertões do Sapucaí, foram conhecidos todos os seus próximos afluentes - o Cervo, o Itaim, o Sapucaí-Mirim e o Mandu, que banha a cidade de Pouso Alegre, situada à margem esquerda, a um quilômetro de sua foz.
O nome que lhe deram os primeiros vindiços à região não provém, como querem alguns, do apelido "Manduca", modo de pronunciar Manuel entre os bugres civilizados, nem ainda das expressões lembradas por Teodoro Sampaio, no seu livro "O Tupi na Geografia Nacional": Mandu, nome de uma figura fantástica e de uma pequena ave - o Mandutôlo.
Segundo opinião vulgarmente aceita e fora já de controvérsia, o nome Mandu, rio, originou-se de Mandu, peixe, o que se confirma no caso de Pouso Alegre. É geralmente sabido que, no inverno, esse peixe se encontra em grande abundância no Mandu, tanto que, nesse tempo do ano, era costume em Pouso Alegre fecharem-se paris que só apanhavam mandis, das variedades branca e amarela e de todos os tamanhos.
Como é sabido, os exploradores faziam as suas viagens no tempo do frio, e os que se prevaleceram da pesca no Mandu, por essa estação, apenas pescavam madis; então, e muito naturalmente, denominaram eles o rio do Mandi, que por confusão comuníssima de pronúncia, passou a ser Mandu.
As modalidades regionais da língua tupi modificaram muitas das suas palavras. O "I", água, monossílabo e vogal gutural, não encontra nenhuma grafia que represente exatamente a variedade de sons que lhe têm sido atribuídos. Não existindo em português sinal representativo do som do "Y" ou do "U" francês, a pronúncia gutural tupi ficou, ora equivalente a "I" simples, como na palavra Ipanema, etc; ora equivalente a "U", como na palavra Utinga, e outras.
Da mesma e difícil vocalização do "Y' grego, cuja gama, como já se disse, está entre "I" e "U", resultou a desinência "U" ou "Hu", que se nota em certas denominações do norte e sul do Brasil, como em Moiu, rio das cobras; Cunhãhu, rio das mulheres, Mondahu, rio do furto; Tambaú, rio das conchas e Mandihu, rio do mandi.
Modificação igual deu-se com outros rios que têm o mesmo nome, por exemplo, o rio Mandu no Estado do Espírito Santo. Esse rio tomou o nome do lugar em que nasce - região dos índios Mandis, e bem assim o Mandu-Mirim, ambos afluentes do Rio Doce.
Em todos os documentos antigos e mapas conhecidos, a palavra Mandu vem grafada sempre do mesmo modo, menos na carta corográfica da capitania de São Paulo, de 1766, onde consta grafada “Mandu”. O nome assim com dois "us", um com acento agudo, outro com acento circunflexo, confirma a opinião corrente. Nota-se ainda um fato interessante: é geral, tanto nos documentos antigos, como entre o povo, noutros tempos, denominar-se rio do Mandu; não se escrevia nem se falava rio Mandu, simplesmente.
Fora a aludida carta corográfica, em outros documentos conhecidos a palavra Mandu mantém-se invariável; jamais se encontra nesse nome qualquer modificação que revele transições, de modo a deduzir-se que ele se originou de outra palavra - Manduca, por exemplo.
Em vista desses e doutros argumentos, não citados por estranhos à natureza deste trabalho, concluiu-se definitivamente que o nome Mandu provém de Mandi - rio do Mandi ou rio do Mandu.

PARTE IV


Em 1764 era plenamente conhecida a região do Mandu; nas proximidades de sua foz existia já um registro instituído pelo Governo, para fiscalizar-se o ouro proveniente das minas de Santana e de Ouro Fino, clandestinamente desviado para Santos e São Paulo.
Luiz Diogo Lobo da Silva saiu de São João del-Rei em 1764, para dar um giro pelos confins dessa comarca; em sua companhia levou Cláudio Manuel da Costa , secretário do Governo, conforme conta o próprio poeta em seu poema Vila Rica.
Nessa viagem, que durou cerca de três meses, percorreu Luiz Diogo trezentas e cinqüenta e seis léguas. Sua comitiva, partindo de São João del-Rey, foi a Oliveira, Capetinga, Pium-i, Barra do Sapucaí; desceu as cercanias de Jacuí, de onde seguiu, atravessou o Mandu e visitou Santana, Campanha, etc.
Chegando a comitiva a São João, Cláudio Manuel lavrou, em data de 26 de novembro de 1764, um termo ou acento da diligência, fazendo o histórico de toda a viagem, do qual destaca-se o seguinte tópico: "...passando depois do Camanducaia, nas vizinhanças do rio Jaguari, Registro do Mandu , Sapucaí", etc. E mais este: "Igualmente convieram que o antigo registro, chamado do Mandu, não devia continuar no sítio em que se achava", etc.
Já existia, pois, o registro do Mandu com designação de antigo, por ocasião da viagem de Luiz Diogo, que o mandou retirar por ficar fora da estrada que ligava o arraial de Ouro Fino ao de Camanducaia.
No acento da Junta do Rio de Janeiro, em 1765, convocada pelo Conde da Cunha para resolver sobre os limites das capitanias de São Paulo e Minas Gerais, existe a referência seguinte:
"Depois que os ditos governantes se apoderaram dos ditos descobertos, têm mandado mudar o Registro que estava no Rio Grande, primeiramente para a passagem do Sapucaí, logo depois para o rio Mandu, mais adiante dez léguas".
Refere Diogo Vasconcelos, na História Média às Minas Gerais, que Luiz Diogo, quando fez o seu giro, perlongou o Mandu; não há, porém, no acento feito por Cláudio Manuel, nenhuma referência à viagem ao longo desse rio. O mapa apresentado por Luiz Diogo ao Conde da Cunha, representa por um traço de carmim todo o caminho do giro, e atravessa apenas o Mandu, partindo diretamente de Camanducaia para Santana.
No Auto Sumário de Atibaia, feito em 26 de março de 1789, para verificação da posse da Capitania de São Paulo, depuseram várias testemunhas, entre as quais Ângelo Batista, dizendo:
"Entrando com uma Bandeira para a parte do Sapucaí-Mirim, soube que se pôs um Registro por parte de Minas Gerais, no rio do Mandu, etc".
Miguel Carlos de Azevedo depôs:
"Que Francisco Martins Lustosa, temendo ser preso, deixou a defesa dos limites da Capitania, fixando no Sapucaí uma guarda, que passados anos puseram o Registro no Rio Mandu..."
Amaro Leite diz ainda:
"Gomes Freire de Andrade mandou por ordem sua tomar posse de todas aquelas terras minerais, pondo uma guarda no Sapucaí e logo depois um Registro no Rio Mandu..."
Tomaz Rubim de Barros Barreiro apresentou-se em Santana para a demarcação de Gomes Freire de Andrade, em setembro de 1749. O Gurda-Mor Martins Lustosa o recebeu em termos que provocaram as iras do Governador, recusando os oferecimentos de conciliação e de vantagens que lhe foram feitos. Afinal retirou-se pacificamente, acompanhado de seus aderentes, deixando o campo livre para a demarcação sumária que se fez dos limites entre as duas capitanias.
Nesta ocasião, 1749, foi posta no Sapucaí a guarda de que falam as testemunhas do Auto Sumário, notadamente Miguel Carlos de Azevedo, dizendo que, "passados anos, puseram um Registro no rio do Mandu...". Quem fez a mudança do Registro foi Luiz Diogo, portanto, foi ele criado entre os anos de 1749 e 1764. Admitindo-se então um tempo médio de seis anos para justificar o que diz a testemunha: "passados anos", temos que o Registro foi criado em 1755, mais ou menos.
A existência de um Registro nas paragens do Mandu, em 1755, implica, por força, a presença de moradores no lugar, salvo a hipótese de o Fiel desse Registro ter sido o primeiro habitante do Mandu. Mas não é crível que o Governo tivesse criado um posto fiscal em paragem longínqua e o entregasse a um homem solitário ou, quando muito, acompanhado de dois soldados; o que, de modo nenhum se pode admitir, porque os soldados de guarda só eram concedidos aos Registros de grande movimento. Também, esse posto fiscal não poderia ter existido ou funcionado em casa solitária no deserto de um caminho; quem poderá conceber a existência de funcionários públicos em tal isolamento?
Em 1762 foi concedida a Cláudio Furquim de Almeida uma sesmaria na fazenda Pouso Alegre, lugar conhecido hoje por Itapeva, entre Camanducaia e Santa Rita da Extrema. Em seu pedido de concessão, Furquim declara já residir na paragem há mais de cinco anos, isto é, desde 1757. Nesta data existiam, pois - a fazenda Pouso Alegre, de Furquim; moradores do rio Jaguari; estavam fundadas Santana e Ouro Fino e o povoado nas paragens do Mandu, onde funcionava o Registro.
Dos documentos consultados e dos exames dos fatos conclui-se que, muito antes da doação do patrimônio para a criação da freguesia, já um povoado antigo existia nas margens do Mandu. E ainda mais: que esse povoado era relativamente populoso, pois que, a expensas de seus habitantes, foi construída uma igreja, onde celebravam-se missas de tempos em tempos e onde instalou-se a freguesia muito depois, no ano de 1811.
A respeito da Capela do Mandu não houve o que em geral se verificava com os povoados em formação: a iniciativa de algumas pessoas que, por dinheiro ou prestígio político, conseguiam a criação das freguesias. Foi por meio de requerimentos dos habitantes do lugar, amparados pelo Bispo D. Mateus e por uma representação do Juiz de Fora de Campanha, que o Príncipe Regente criou a freguesia da capela, vulgarmente conhecida, do Senhor Bom Jesus do Mandu. A principal alegação ao povo no dito requerimento foi:
"...que são muito numerosos os habitantes do lugar, a freguesia de Santana de território vastíssimo e a sua sede bem distante do Mandu".
Dos fatos se deduz, por fim, que o arraial formou-se lentamente, pouco a pouco, durante quarenta anos; portanto, João da Silva Pereira, ou João da Silva, conforme Bernardo da Veiga e o ato municipal que lhe consagrou uma rua em Pouso Alegre, não foi o fundador da cidade. Mas é incontestável que ele foi o doador de terras para o patrimônio da freguesia, desmembradas das muitas que lhe pertenciam, cujas provas se encontram nos arquivos da cúria metropolitana, de São Paulo.

PARTE V


O que conta Bernardo da Veiga no mencionado almanaque de 1874, quanto ao nome de Pouso Alegre dado ao arraial do Mandu, é infelizmente confirmado, talvez por cópia, no Anuário de Minas, de Nelson Sena.
Antes, porém, de outras considerações, convém mostrar como o velho almanaque costuma tratar a história.
Diz José Pedro Xavier da Veiga nas "Efemérides Mineiras" que José Joaquim Carneiro de Miranda - o Juiz de Fora que colaborou na denominação de Pouso Alegre - foi nomeado em 25 de abril de 1799; Alfredo Valadão, em Campanha da Princesa, diz também que essa nomeação foi feita em 12 de maio do dito ano. Embora esses historiadores discordem quanto ao dia e mês em que se deu tal nomeação, são acordes, afirmando que a posse de Miranda teve lugar em 1800.
Foi Carneiro de Miranda o primeiro Juiz de Fora da Campanha, e não tendo outra pessoa que se possa confundir com ele, como se explica sua ida ao Mandu, em 1797, na qualidade de Juiz, a fim de receber Sarzedas? A sua estada em Mandu, investido das funções de um cargo que ainda não ocupava, parece uma das lendas registradas pelos agentes de Veiga, "que andaram de aldeia em aldeia" ajuntando fatos históricos... Todavia, é muito possível que o próprio Miranda tenha saído ao encontro do governador, mas sem o caráter de Juiz de Fora.
Bernardo de Lorena passou por Pouso Alegre, e não podia deixar de fazê-lo, uma vez que por ali corria o caminho mais curto, e o único freqüentado, entre São Paulo e Vila Rica. É natural que tenha colaborado na denominação do lugar, ou seja, mesmo o seu autor. Isso, porém, melhor se explica pela dedução ou informações razoáveis, que por intermédio do Juiz de Fora Miranda, amparado pelas expressões ingênuas e poéticas do historiador sul-mineiro.
Quando em julho de 1797, o Conde de Sarzedas, removido da Capitania de São Paulo para a de Minas Gerais, passou pela capela do Bom Jesus do Mandu, aplicou-lhe, segundo o primeiro historiador da cidade, num verdadeiro arroubo lírico, o nome de Pouso Alegre. No entanto, observa Felício dos Santos, fino cronista estranho às coisas sul-mineiras, que Bernardo de Lorena foi um indivíduo grosseiro, incapaz de sentimentos poéticos e sobretudo afamado pelos seus hábitos torpes de devasso. 
Ao deixar a Capitania de São Paulo, levou consigo duas mestiças, suas amásias; tais mulheres gozavam indistintamente das mesmas regalias, e exerciam simultaneamente tão poderosa influência sobre o Governador, a ponto de se tornarem as supremas autoridades do numeroso séquito de peões, tropeiros e serventes que acompanhavam o Capitão-Mor.
A respeito dessa viagem, conta uma carta que aqui vai referida por mera curiosidade, que os fardos mais pesados da bagagem e mais difíceis de transportar eram as amásias do Governador. Tão mandonas e comodistas eram elas, que obrigavam a comitiva a estacionar por mais de um dia em certos pousos, a fim de dormirem e comerem à vontade...
Na penosa travessia de São Paulo a Vila Rica, passava-se pela já mencionada fazenda chamada Pouso Alegre, cuja origem remonta ao ano de 1762. Essa fazenda pertencia a Cláudio Furquim de Almeida, por carta de sesmaria concedida pelo Conde de Bobadela, conforme linhas atrás. O lugar existe até hoje, é triste, desolado e feio: ninguém mais o conhece por Pouso Alegre, tem agora o nome de Itapeva.
Como a fazenda Pouso Alegre era um dos pousos para quem viajava de São Paulo a Vila Rica, por lá passou Bernardo José Lorena; lá pernoitou e talvez permanecesse por mais de um dia, em virtude dos contratempos freqüentes nas viagens pelo sertão. Imagina-se o que teria sido a bagagem e comitiva de um Capitão-Mor transportando-se de uma para outra capitania...
O número de peões, serventes, tropeiros e mulas; a condução de haveres, trens de cozinha, víveres e barracas; os recursos, em fim, para a travessia de uma região despovoada! Por tudo isso conclui-se que as paradas mais ou menos longas, nos lugares de recursos, seriam freqüentes.
Como quer que seja, o certo é que da fazenda Pouso Alegre levou a comitiva a má impressão da tristeza e da falta de recursos de tal pouso.
Em seguida, atravessando uma paragem erma, cheia de morros e de maus caminhos, o rancho de Sarzedas chegou ao Mandu, um povoado populoso e, por isso, de recursos. É provável que lá permanecesse por algum tempo, e lá recebesse alguém de Campanha ao encontro de Lorena. Então é razoável concordar-se com o almanaque - "encantados com as lindas paisagens e vastos horizontes, e sobretudo com o repouso e fartura, tendo muito vivas as recordações da fazenda Furquim, alguém dissesse naturalmente, sem entusiasmos poéticos, por simples comparação: "Este lugar é que devia chamar-se Pouso Alegre e não aquele pouso onde estivemos".
Um batismo assim espontâneo é bem mais compatível com a verdade, que o lirismo de um português grosseiro, acompanhado de amásias, tropeiros e mulas. Além do mais, não é crível que o desconhecido padrinho de Pouso Alegre se lembrasse por acaso de tal nome, existindo já muito próximo um lugar assim chamado, geral e oficialmente. Bernardo de Lorena, ou quem quer que fosse de São Paulo para Minas, não poderia desconhecer a Fazenda Pouso Alegre, pois teria inevitavelmente de passar por ela, visto ser ponto de pernoite.
Por intermédio do Capitão-Mor ou de outro viajante qualquer, o que houve foi o que ainda hoje acontece freqüentemente: uma transferência de nome, coisa, aliás, muito natural, em se tratando de um nome como "Pouso Alegre", correspondente às condições e encantos de um lugar. Além disso, a denominação "Pouso Alegre", dada a localidades, é mais comum do que parece; são conhecidos cerca de quinze lugares assim chamados, e dois deles em virtude de passagem de um para outro.
No Sul de Minas é freqüentíssima a transferência de nomes entre serras, córregos, sítios e localidades. O nome Itajubá já tem designado nada menos que quatro paragens. Conforme o Dicionário Geográfico, de Saint´Adolphe, as minas de Campanha foram descobertas em 1720, sendo a freguesia criada quatro anos depois. A respeito do mesmo assunto veja-se o que diz o certificado do Padre João da Silva Canalo, Clérico e Presbítero do Hábito de São Paulo:
"Certifico em como entrei nestas novas minas de Itajubá, em adjunto com Geraldo Cubas Ferreira, com ânimo de assistir nelas, etc. Novas Minas de Itajubá, Novembro, 3, de 1723".
No auto de posse do Sertão do Rio São João (Jacuí) em 1775, há referências ao "Rio Sapucaí das Campanhas de Itajubá", de onde se conclui que Itajubá é antiga denominação e uma paragem da mesma região, onde existia ouro.
A moderna cidade de Itajubá tomou o nome do lugar chamado Itajubá, hoje Itajubá Velho, ou Soledade de Itajubá, cuja fundação, conforme Vieira de Carvalho, foi anterior à abertura do caminho do Sapucaí... Itajubá é ainda o antigo nome do penhasco hoje conhecido por Baú, no distrito de São Bento do Sapucaí.
O nome Pouso Alegre, designando a capela do Senhor Bom Jesus do Mandu, não era usado nem pelo povo; em nenhum documento anterior à criação da freguesia se vê tal nome dado ao arraial, que conserva invariavelmente o nome de capela do Mandu. Um bom argumento a respeito encontra-se nos termos do alvará que criou a freguesia: "Hei por bem erigir em nova freguesia colada, a Capela do Bom Jesus de Pouso Alegre - vulgarmente chamada de Mandu".
O que se depreende destes documentos e do que consta em documentos históricos de várias naturezas, é que o nome de Pouso Alegre foi adotado pelos moradores do lugar, quando foi feita a representação pedindo a criação da freguesia... É mais aceitável e mais sério admitir-se a transferência de nome de um lugar para outro, feita deliberadamente, que as exclamações do pesado Capitão-Mor Bernardo de Lorena ou do anacrônico Juiz de Fora de Campanha.

PARTE VI


O Mandu é um pequeno rio de cerca de quarenta e cinco quilômetros de percurso. Nasce em um dos vales formados pelas vertentes da Serra do Abertão, e tomando o rumo NE, atravessa parte da bacia do Sapucaí, lançando-se no Sapucaí-Mirim.
A um quilômetro, mais ou menos, acima de sua foz, passava, em 1750, o caminho de São Paulo a Vila Rica. Na parte NO desse caminho - nas encostas da Serra do Gaspar, que morrem à margem esquerda do Mandu - estende-se a vasta região de campos e de matas; é fértil, aprazível e de um clima muito ameno, apesar da vizinhança de várzeas dilatadas e alaguiças que se estendem para o sul, à margem direita do rio, tomando largamente a direção do leste. Aí dava-se o ponto de intercessão do antigo caminho com o rio, e hoje está situada a cidade de Pouso Alegre.
A observação detida da localidade e a existência de numerosos vestígios, levam à convicção de que o primitivo caminho, ao aproximar-se do rio, passava pelo espigão do morro chamado Alto das Cruzes, e descia pela encosta da colina em que fica o bairro das Taipas, ao longo do córrego, até inserir-se no rio, onde termina a rua antigamente chamada da Cadeia Queimada.
Nesse ponto começou a edificação do povoado.
Tendo-se em vista a natureza ao Norte do rio, verifica-se que o estabelecimento principal da povoação - a fazenda de criar - era situada nas fraldas do monte central, ladeado por extensos brejais cortados por dois córregos até a margem do Mandu. A localização dessa fazenda deve coincidir com o centro da cidade, nas imediações da Praça Senador José Bento...
Via-se, então, como ainda se vê hoje em muitos lugares, a fazenda situada na encosta e, ao longe, na margem do rio, um pequeno núcleo de casas, rancho e venda destinada ao comércio com viajantes.
Quem primeiro habitou as margens do Mandu foi o aventureiro Antônio de Araújo Lobato, mais ou menos em 1750, logo depois da expedição de Francisco Martins Lustosa e Veríssimo João de Carvalho, ao longo desse rio e do Cervo.
Araújo Lobato, como todos que se apossavam de terras nos sertões, não foi jamais incomodado pelo Governo, o qual, tendo as suas atenções voltadas para a extração do ouro, tolerava os raros aventureiros que se estabeleciam nos campos e nas matas para se dedicarem a lavoura e criação de gado.
Alguns anos depois de Araújo Lobato, um outro aventureiro de nome Felix Francisco também se apossou de terras no mesmo sertão.
Em geral esses aventureiros eram homens de haveres, senhores de escravos, e logo que se apossavam de terras, nelas construíam moradas, abriam plantações, fechavam currais, organizando verdadeiras fazendas. Como acontecia normalmente por esse tempo, consentiam ou procuravam os fazendeiros instalar moradores em suas terras, os quais, trabalhando para si, embora em campo alheio, concorriam para a prosperidade das fazendas, geralmente conhecidas por se localizarem ao longo das estradas.
Entre os habitantes da primitiva fazenda, figurava João da Silva Pereira, que, em 1755, adquiriu por compra as terras posseadas por Lobato e por Felix Francisco. Como, porém, a posse de vendedores não se achava legitimada, João da Silva Pereira, depois de cultivar as ditas terras por mais de trinta anos, requereu ao governo de Luiz da Cunha Menezes a concessão de uma sesmaria de três léguas de comprimento por uma de largo, a qual compreendia integralmente as terras por ele adquiridas.
A sesmaria lhe foi concedida em 14 de junho de 1785. E a demarcação dela abrange toda a paragem que começa, por um lado, na vargem da barra dos dois Sapucaís, sobe pelas vertentes da Serra do Gaspar, onde está edificada a cidade e segue por espigões até descer no ribeirão das Anhumas; por outro lado atravessa o Sapucaí, terminando no ribeirão da Estiva, afluente do mesmo rio.
Em virtude do valor dessa carta de sesmaria, e pelo fato de não ter constado até hoje em nenhum trabalho histórico de Pouso Alegre, damo-la em seguida na íntegra:
“Luís da Cunha Menezes, etc.
Faço saber aos que esta carta de sesmaria virem que atendendo o que me representou por sua petição João da Silva Pereira, morador na Freguesia de Santana do Sapucaí, em terras que cultiva há mais de trinta anos por compra que então delas fez a Antônio de Araújo Lobato, primeiro povoador daquele sertão, e outras mais, povoadas e cultivadas ao mesmo tempo daquelas por Felix Francisco, cujas terras se verificam entre os rios Sapucaí-Mirim e Sapucaí-Assu, tanto umas como outras em que se acha atual cultura desde o referido tempo; e porque as quer possuir na forma das Reais Ordens, pedindo-me por fim e conclusão de seu requerimento lhe concedesse uma sesmaria de três léguas de comprido e uma de largo para poder titular as sobreditas terras compradas por de outra forma o não poder fazer por terem extensão grande, sendo a maior parte campos de criar o gado vacum e cavalar com que se acha o suplicante nelas estabelecido, principiando-se a mediação no fim do Espigão donde finda a barra de um e de outro Rio, correndo sempre pelo dito Espigão acima, até onde findarem as terras que o suplicante comprou, que é o primeiro Ribeirão acima do Córrego chamado "dos Macacos", que deságua para o Sapucaí-Mirim e do outro com um Córrego chamado "Lagoinha", que deságua para o Sapucaí-Assu, fazendo-se o Pião, donde mais conveniente for, por ser uma paragem quase sertão inda até o presente, cuja concessão a requer com preferência a outra qualquer na dita paragem, tudo na forma das ordens de Sua Majestade, etc, etc..."
Verifica-se claramente pela carta de sesmaria doada a João da Silva que a primeira sesmaria concedida no sertão do Mandu foi a sua, que adquiriu de Araújo Lobato e Félix Francisco - primeiros habitantes da paragem - as terras cuja posse legitimou por meio da referida concessão.
A carta torna incontestável a demarcação referida, não só pela coincidência hidrográfica, mas principalmente pelas seguintes razões: da vargem dos dois Sapucaís ao Ribeirão das Anhumas, a distância é de três léguas; da mesma barra ao Ribeirão da Estiva, no Sapucaí-Grande, é de um légua, exatamente a extensão demarcada na sesmaria. A posição dos ribeirões coincide também e, por fm, não há outro espigão, a não ser o da Serra do Gaspar, por onde possa correr a demarcação de um dos lados da sesmaria.
O fato de se dizer no documento oficial que as terras ficam entre os rios Sapucaí-Assu e Mirim - "entre um e outro" - explica-se em vista das cartas geográficas de 1767, pelas quais se verifica que o conhecimento que outrora se tinha da direção dos dois rios, era o contrário da que é cientificamente determinada nos mapas de hoje. Nas cartas de 1767 observa-se que a curva formada pelos dois rios, na sua junção, era o inverso da curva determinada atualmente; invertendo-se, pois, a direção real dos ”sapucaís”, tem-se que a Sesmaria ficava entre um e outro.
Durante os trinta anos que mediaram entre a compra e a posse legal de João da Silva Pereira, desenvolveu-se o povoado, cuja origem foi o estabelecimento de Araújo Lobato no Sertão do Sapucaí.
Em 1766 já era o pouso do Mandu relativamente grande, visto que nessa data ali estabeleceu o Governo um Registro Fiscal para o ouro que saía de Santana e de Ouro Fino. Cerca de cinqüenta anos depois de sua fundação, quando já eram numerosos os habitantes do lugar, empreenderam eles a criação da freguesia, por se lhes tornar difícil a freqüência a Santana, a cuja paróquia pertenciam. Deram, então, começo ao empreendimento, construindo uma capela a custa dos moradores do lugar.
Em 1790 a capela estava edificada nas proximidades da fazenda que pertencera a Araújo Lobato; a localização dela coincide como o centro da atual Praça Senador José Bento, onde está o monumento a Imaculada Conceição, no jardim que existe na referida praça. A igreja foi consagrada ao Senhor do Bom Jesus dos Mártires, e da sua ereção em diante o povoado passou a denominar-se Capela do Mandu.
Construída a igreja, celebrou-se a primeira missa, celebrada pelo Padre Francisco de Andrade Melo, residente em Santana, o qual, daí por diante, ficou sendo o capelão particular.
Depois desse largo passo de adiantamento, o arraial se desenvolvia gradualmente, mas continuava como capela particular, apesar dos esforços e pedidos insistentes de seus moradores no sentido de ser criada a freguesia. Afinal, aumentando-se consideravelmente a sua população, e tornando-se, por isto, mais prementes as suas necessidades religiosas e administrativas, resolveu a Mitra auxiliá-los no seu intento.
Por meio de representação do Juiz de Fora da Campanha e petição do povo, o Bispo de São Paulo informou favoravelmente, encaminhando a petição ao Regente: alegava ela, principalmente, a grande população do lugar, a enorme extensão da paróquia de Santana e pedia a criação da freguesia com a denominação de Freguesia do Senhor Bom Jesus de Pouso Alegre. Atendendo à informação do Bispo D. Mateus, o Príncipe Regente mandou erigir, por Alvará de 6 de novembro de 1810, em nova freguesia colada, a Capela do Mandu.
Está perfeitamente averiguado que o patrimônio da freguesia foi oficialmente doado por João da Silva Pereira. Mas nos documentos públicos de Pouso Alegre não se encontram referências a seu nome, e parece que ele já não existia ou mudara do lugar quando foi instalada a paróquia. Do termo lavrado então não consta a sua assinatura, o que é estranho, tratando-se de pessoa mais que qualquer outra interessada pelo acontecimento.
João da Silva Pereira não foi o fundador de Pouso Alegre; ao que consta, por fim, apenas doou o patrimônio da freguesia, cerca de cinquenta anos depois do primeiro habitante do Mandu. Pela verdade, pois, dos documentos históricos, quem lançou os fundamentos de Pouso Alegre foi Araújo Lobato.
E o povoado nasceu, prosperou, cresceu; foi de Freguesia a Vila, de Vila a Cidade, de pouco em pouco, espontaneamente, pela riqueza de suas terras, pela excepcional posição geográfica, pelo encanto de sua paisagem.

PARTE VII


Aos vinte dias do mês de fevereiro de 1811, neste arraial do Senhor do Bom Jesus de Pouso Alegre, dentro desta matriz, apareceu o Reverendo José Bento Ferreira de Melo para o efeito de tomar posse da mesma matriz, cuja posse lhe deu o Reverendo José Melo, e a ele recebeu mansa e pacificamente, sem contradição de pessoa alguma e logo fez os atos possessórios, tomando estola, beijando o altar, sentando-se na cadeira paroquial e mandando tocar os sinos, e por verdade de tudo se fez este termo em que assinam, o Reverendo empossante, o empossado com o Clero, Nobreza e Povo que se achavam".
Desse modo instalou-se a freguesia e Pouso Alegre iniciou a sua existência civil e religiosa.
Parece claro que a criação da freguesia foi devida a necessidade religiosa e a constantes solicitações do povo, auxiliado pelo Bispo D. Mateus; mas meditando-se sobre os primeiros tempos da vida do Padre José Bento, tem-se a impressão de que também ele se esforçou pessoalmente junto ao Bispo, constituindo esse fato o seu primeiro serviço à terra que interessadamente adotou.
José Bento Leite Ferreira de Melo, natural da cidade de Campanha, espontaneamente votado à vida clerical, transferiu-se aos vinte anos de idade para São Paulo a fim de completar seus estudos. Nessa capital residiu em companhia de seu protetor, o Bispo D. Mateus, até ordenar-se, aos vinte e cinco anos, em 1809.
Recebendo ordens, procurou naturalmente estabelecer-se em paróquia que lhe conviesse; então, conhecedor do Arraial do Mandu e das aspirações do seu povo, intercedeu junto ao Bispo e assim, também com a sua colaboração, foi criada a paróquia. Confirma esta suposição o fato de ter sido ele o único concorrente quando a freguesia foi posta em concurso e logo apresentado e colado, por carta do Príncipe Regente, em 7 de maio de 1811.
O Arraial de Pouso Alegre, em 1811, contava já cerca de cinqüenta casas bem construídas e não era, portanto, o Mandu com meia dúzia de casas de aparência miserável, de que um dia falou Evaristo da Veiga. Lá encontrou o Padre José Bento vivos elementos de progresso, pessoal apto para ocupar lugares na administração e para auxiliá-lo no seu intuito dos melhoramentos locais. Além disso, o Padre José Bento, logo depois de sua posse, procurou engrandecer a povoação, atraindo para ela muitos dos seus amigos e seus parentes.
Por este tempo existiam nas imediações do arraial grandes extensões de terras devolutas, as quais foram adquiridas por meio de concessões de sesmarias. Destacavam-se pelo seu valor e prosperidade, as que pertenceram a Inácio João Cobra, ao Padre João Dias de Quadros Aranha e ao próprio Padre José Bento, no lugar chamado Ribeirão das Mortes, onde teve ele, até morrer, a sua fazenda.
Cerca de vinte anos depois de criada a freguesia, já Pouso Alegre se distinguia entre as localidades sul-mineiras, tanto pelo progresso material como pelo adiantamento de seus habitantes.
E foi num meio assim, social e politicamente preparado, que o Padre José Bento, já em caminho das mais altas posições políticas, realizou um dos maiores empreendimentos da época, fundando em Pouso Alegre a tipografia que publicou o Pregoeiro Constitucional.


FIM